HISTÓRIAS DE UM
PREFEITO DE PRAÇA
Lauro Leopoldo
Praça David Ben Gurion · Porto Alegre
I. Apresentação: O Prefeito de Praça
Praça David Ben Gurion
O papel do Prefeito de Praça: voluntário, facilitador e elo entre a comunidade e o governo municipal
Responsabilidades da função: zelar pelo espaço e pelos equipamentos, acompanhar a manutenção e atender às necessidades da comunidade
II. Histórias de um Prefeito de Praça
1. O Corpo Largado na Praça
A Notícia Alarmante: o recebimento da notícia sobre um corpo na praça
A Mobilização e a Confirmação: a ida ao local, o cheiro insuportável e a expectativa de ser um corpo humano
A Descoberta Inesperada: tratava-se do corpo de um cachorro de grande porte
A Resolução e o Pertencimento: a descoberta do autor da ação, a conversa sobre a revitalização da praça e o pedido de desculpas
As Lições: o sentimento de pertencimento e o aprendizado sobre convivência em comunidade
2. Papai Noel Não Chora
A Celebração de Natal: o 'Natal Solidário' na Praça David Ben Gurion, a decoração por doações e a união das famílias
A Magia e a Solidariedade: a distribuição de presentes para crianças carentes e a participação de artistas locais
A Dor Pessoal: a perda abrupta da cachorrinha Lilica, herança do pai do autor, momentos antes da chegada do Papai Noel
A Missão Acima da Dor: a decisão de manter o evento ('O Papai Noel levará alegria às crianças carentes, mesmo com o coração partido')
O Legado: o exemplo de união, solidariedade e esperança que a praça se tornou
3. O Gato da Figueira
A Figueira e o Hábito: a figueira como Árvore de Natal e ponto de caminhada do autor e de seu filho
O Encontro com o Felino: a observação de um gato grande no alto da árvore, apelidado de 'tigre caçando'
A Acolhida e a Regra: o felino aparece na porta, é recebido com comida, mas com a condição de manter sua liberdade
A Amizade com Limites: o gato, carinhosamente chamado de 'Bize', estreita o relacionamento com a família, mas não permite ser tocado
O Amigo da Praça: a certeza de que o animal sabe que pode contar com seus acolhedores
A Praça David Ben Gurion, situada no coração da zona leste de Porto Alegre, é um espaço de vida, memória e comunidade. Há quase cinquenta anos morando no bairro, Lauro Leopoldo aceitou o convite de ser voluntário na função de Prefeito de Praça — uma espécie de facilitador que mantém o diálogo entre a comunidade e o governo municipal.
O Prefeito de Praça é um elo vivo: zela pelo espaço e pelos equipamentos, acompanha os serviços de manutenção e atende às necessidades dos moradores. Exerce essa missão com honra e dedicação, convicto de que o cuidado com o espaço público é também o cuidado com as pessoas que nele habitam.
Neste e-book, Lauro compartilha três histórias vividas na praça — situações que revelam, com humor, emoção e sabedoria, o que significa pertencer a uma comunidade e ser responsável por um bem comum.
Meu nome é Lauro Leopoldo. Fui indicado e aceitei ser voluntário na função de Prefeito de Praça, uma espécie de facilitador que mantém o diálogo entre a comunidade e o governo municipal. É uma missão que exerço com muita honra e, afinal, moro há quase cinquenta anos no bairro e conheço bem a região. A Praça David Ben Gurion foi revitalizada — mas isso é outra história.
Hoje, vou relatar o dia em que meu telefone tocou com a notícia de que haviam jogado um corpo na praça. Como essa situação já havia ocorrido no passado, levei a sério. Fui até o local, onde alguns vizinhos já aguardavam. O interessante é que a notícia já circulava nas redes sociais: 'um corpo largado na praça'. A internet não inventa, mas aumenta muito as coisas sem verificar a veracidade.
Ao chegar ao local, senti um cheiro insuportável, cheiro de carne podre. Tudo estava dentro de um grande embrulho, muito bem enrolado, do tamanho de uma pessoa pequena. Não sou legista, mas a primeira providência foi abrir e certificar-me se realmente se tratava de um corpo. Tudo indicava que sim. 'Vamos abrir — se Deus quiser, não é um corpo!', pensei. Fomos abrindo o grande pacote e, para nossa surpresa, tratava-se do corpo de um cachorro de grande porte.
Minha primeira providência foi informar nas redes sociais que se tratava de um cachorro. Sabemos que, no passado, os moradores tinham esse costume: largar os animais mortos na praça para a prefeitura recolher. Sabemos também que os preços de funerais para animais são inacessíveis para muitas famílias. Chegamos, então, à segunda fase da missão: descobrir quem havia feito aquilo. Acionamos a todos na busca pelo indivíduo que abandonara o corpo do seu cachorro na praça.
A informação tomou uma proporção que, por incrível que pareça, nos levou a descobrir o autor da ação. Conversei com ele, explicando que a praça havia sido revitalizada e que agora existia um sentimento de pertencimento — que todos, de alguma maneira, estávamos cuidando daquele espaço público. Sugeri que ele retirasse o corpo e desse um fim digno ao seu animal.
Sinceramente, não imaginava que minha sugestão seria aceita. Fiquei surpreso: ele compreendeu o espírito que paira nessa nova etapa da praça.
Ele simplesmente retirou o grande saco com o corpo do seu cachorro e pediu desculpas a todos. É importante dizer que, repetidamente, ele dizia: 'Prefeito, diga que eu pedi desculpas — foi um ato impensável'. Apesar de ser uma pessoa humilde, teve a integridade de reconhecer seu erro. Informei que, se necessário, faríamos uma vaquinha para realizar o funeral do animal, mas ele não aceitou.
Um 'prefeito de praça' atua como um elo entre a comunidade e o governo municipal, zelando pelo espaço público e promovendo o bem-estar dos moradores. As responsabilidades incluem zelar pelos equipamentos, acompanhar os serviços de manutenção e atender às necessidades da comunidade.
Ficaram muitas lições — entre elas, o sentimento de pertencimento à praça. Quando erramos e admitimos nosso erro, saímos mais fortes e nos tornamos um bom exemplo. A praça é um lugar onde tiramos fotos com a família, um lugar para deixar pegadas — mas, acima de tudo, é um lugar onde aprendemos a conviver em comunidade.
A Praça David Ben Gurion, situada no coração da zona leste de Porto Alegre, transforma-se em um palco de sonhos a cada Natal. Sob a liderança do 'prefeito de praça', centenas de famílias se unem para celebrar a magia da data em um gesto de pura solidariedade.
A decoração da praça, fruto de doações espontâneas, irradia o calor humano que aquece os corações — especialmente os das crianças das comunidades carentes vizinhas, para quem a festa representa a única oportunidade de receber presentes e o carinho do Papai Noel. O 'Natal Solidário' da praça é um testemunho da força da união. Vizinhos, imbuídos do espírito natalino, compartilham brinquedos e alimentos e contribuem para a alegria da criançada. Recebemos muitas doações — até locação de pula-pula, que garante boas risadas.
A música, elemento essencial da celebração, eleva a alma e transporta os presentes para um mundo de emoções, onde a tristeza se dissipa e a alegria reina. Artistas locais, como a dupla de cantores de rua e os músicos do antigo grupo Impacto, oferecem seus talentos em troca de um sorriso — em um gesto de pura generosidade.
A chegada do Papai Noel é o ponto alto da festa, um momento de encantamento para crianças e adultos. A ansiedade toma conta da praça enfeitada com esmero, enquanto a pergunta ecoa no ar: 'Quando chega o Papai Noel?'. Ele vai chegar logo! Com sua roupa de pelúcia, barba branca e botas reluzentes, para distribuir abraços, presentes e esperança.
No último Natal, a alegria da celebração foi contrastada com a tristeza da perda de Lilica, a cachorrinha que era parte da família do 'prefeito de praça' — que também é o Papai Noel. Minutos antes da chegada do Papai Noel, recebi uma mensagem abrupta do meu filho Bernardo: 'Pai, corre lá em casa — a mãe está chorando muito'. Prontamente, larguei tudo e fui verificar o que havia acontecido.
Ao chegar em casa, deparei-me com um triste cenário: Lilica havia falecido. Minha esposa estava muito abatida ao lado de nossa estimada cachorrinha Lilica, herança do meu pai após o seu falecimento.
Cuidamos de Lilica com muito amor e carinho por muitos anos, mas ela resolveu partir justamente naquele momento — antes da chegada do Papai Noel.
Meu filho Bernardo perguntou se cancelaríamos a chegada do Papai Noel na praça. Respondi: 'O Papai Noel levará alegria às crianças carentes, mesmo com o coração partido'. Em um momento de dor, a missão de levar alegria às crianças falou mais alto. O Papai Noel, com o coração apertado mas o sorriso no rosto, cumpriu seu papel — distribuindo felicidade e amor às crianças e famílias.
Então chegou o fim da festa na praça e o Papai Noel fez sua despedida. Após todos saírem e a limpeza ser concluída, havia uma nova missão: despedir-me de Lilica e providenciar a cremação da partida com a dignidade que ela merecia. Quem trata animais como um filho sabe do que estou falando.
A festa de Natal na Praça David Ben Gurion é um exemplo de como a união e a solidariedade podem transformar vidas. As fotos das famílias reunidas, com sorrisos estampados nos rostos, são a prova de que o amor ao próximo é o maior presente que podemos oferecer. Arrecadamos centenas de brinquedos e alimentos, distribuídos na praça e em várias instituições de caridade.
A praça, outrora abandonada, é hoje um espaço de cultura, entretenimento e lazer — um símbolo da esperança que renasce a cada Natal. E o Papai Noel, com o coração repleto de amor, segue sua missão, espalhando alegria e ensinando que, mesmo diante dos desafios, nunca devemos desistir de ajudar o próximo.
Eu e meu filho, sempre lutando com a balança, encontramos na caminhada pela praça uma de nossas melhores alternativas. A Praça David Ben Gurion possui uma linda figueira que, anualmente, serve de Árvore de Natal quando a enfeitamos com laços vermelhos — o que a deixa simplesmente deslumbrante.
Esta árvore, além da beleza festiva, nos proporciona uma sombra generosa. O que mais chama a atenção na figueira é sua grandiosidade e exuberância.
Não somos os únicos a apreciar a árvore: ela atrai inúmeros pássaros, e sua beleza nos encanta sempre que a contemplamos. Certo dia, enquanto caminhávamos perto da majestosa árvore, olhamos para cima e avistamos um animal grande. Não era um pássaro, mas sim um felino — um gatinho que, toda vez que passávamos sob os galhos, nos observava atentamente.
Logo comentei com meu filho: 'Isso não é um gato, é um tigre caçando!'. Era um olhar direto, que parecia pronto para o bote. A vida selvagem é assim: um dia da caça, outro do caçador.
Aquele gatinho, contudo, tinha algo diferente. Em nossa casa somos acolhedores com os animais — e não é que o felino da figueira apareceu na nossa porta, com um olhar que parecia o Gato de Botas! De início, pensamos que fosse de algum vizinho. Mas o gato começou a 'falar' conosco, pedindo água e comida. Foi assim que se iniciou nosso relacionamento com o felino da praça. Para quem estava caçando no alto da árvore, a vida melhorou bastante ao começar a ganhar comida fácil.
Entretanto, temos uma prática em casa: todo animal deve ser livre para chegar e para ir embora. Isso coincidiu com a época em que lançaram um filme sobre um pinguim que chegou à praia do Rio de Janeiro e foi acolhido por um pescador. O animal, extenuado de uma longa jornada, foi recebido com amor e carinho — mas a regra de sua liberdade sempre permaneceu clara.
Assim tratamos o gatinho da árvore. Ele chegava sempre no mesmo horário. Cheguei a pensar que já havia sido funcionário público e marcava ponto, pois chegava sempre na mesma hora . Mesmo estreitando um bom relacionamento com toda a família, o gato jamais deixava que lhe encostássemos.
Imaginamos que o fato de ser um animal de rua, solto e conhecedor dos perigos da vida selvagem, construiu algumas regras: 'Amigos, amigos; chegar perto e passar a mão, à parte'. Compreendíamos suas frustrações e medos, mas minha esposa, psicóloga, e meu filho, extremamente acolhedor, fizeram com que ele transitasse pela casa como se tivesse nascido e sido criado ali desde pequeno.
Nosso medo sempre foi que, ao sair para a rua, ele se deparasse com cachorros e predadores. De vez em quando, ele retornava com machucados e grandes esfoladuras. Nós o tratávamos e reforçávamos a regra: 'Você é livre!'
Nós o chamamos carinhosamente de 'Bize' — o gato da figueira da praça que se tornou nosso amigo. Mesmo levando uma vida noturna desconhecida, ele sabe que pode contar com seus acolhedores. Muitas vezes, escutamos na porta de casa um miado que é um verdadeiro sinal de 'abre aí' — ou ele é o primeiro a entrar quando chegamos e abrimos o portão. A vida é assim: quando menos esperamos, há um gato cuidando de nós de cima de uma árvore na praça.
"A verdadeira liberdade floresce quando reconhecemos que a convivência harmoniosa com os animais não é um ato de caridade, mas um pilar de nossa própria humanidade."
— Autor desconhecido
Lauro Leopoldo mora há quase cinquenta anos no bairro onde fica a Praça David Ben Gurion, na zona leste de Porto Alegre. Voluntário e Prefeito de Praça, dedica seu tempo a ser o elo entre os moradores e o poder público, zelando pelo espaço que é de todos — e que, graças a pessoas como ele, se torna cada vez mais vivo e acolhedor.
As histórias reunidas neste e-book são reais. Foram vividas na praça, entre vizinhos, animais e a comunidade. São histórias simples que ensinam o que nenhuma teoria consegue: que o espaço público é o espelho da alma coletiva de um bairro.